Genealogia e Arqueologia dos Navios Portugueses

O investigador Francisco Alves publicou em 2000 um artigo pertinente sobre a genealogia dos navios portugueses, antes da era dos Descobrimentos. De forma sintética, Alves afirma que o papel inovador e revolucionário da construção naval portuguesa deve ser posto em causa, uma vez que tal constitui ainda uma herança da historiografia tendenciosa, de cariz nacionalista, que a atualidade herdou do passado.ulysses

Alves defende dois argumentos principais nesta tese. Por um lado, ao contrário do que vulgarmente se pensa, não há dados arqueológicos suficientes sobre a construção naval portuguesa antes dos Descobrimentos. O autor refere mesmo que, a nível internacional, há maior conhecimento de navios egípcios, gregos e romanos, pois foram encontrados mais navios no Mediterrâneo do que no Atlântico. Além disso, há vários indícios (textos, pinturas em vasos, etc.) de que a evolução da construção naval tenha progredido de forma mais contínua e que, nomeadamente, os árabes tenham navegado ativamente no Atlântico europeu até ao século XIII.

Reescrever a história?

Os portugueses, sob a direção e o impulso da Ordem de Cristo (liderada pelo infante D. Henrique) e com o aval da coroa (flutuante ao longo dos reinados do pai, do irmão e do sobrinho de D. Henrique), foram o primeiro povo da Europa que utilizou a caravela para navegar ao longo da costa africana e cartografá-la.

Ainda que não tenham sido os portugueses a inventar a caravela “a 100%” (de resto, existe a possibilidade forte que a palavra tenha derivado do árabe “qarib”, indiciando essa continuidade técnica e científica entre povos vizinhos e tantas vezes inimigos), este facto permanece. Alguma historiografia moderna contrapõe o “imperialismo” português ao “pacifismo” dos reinos do Norte de África, que inclusivamente teriam chegado também à América, mas optado por não ocupar nem invadir; porém, basta analisar o percurso militarista dos povos islâmicos nos sete séculos anteriores aos Descobrimentos para compreender que não é necessário reescrever a História de raiz.